Região dos Vinhos Verdes vai ter Estratégia de Sustentabilidade

9 março 2021

Projecto da CVRVV está já no terreno, com o apoio da AGRO.GES, e o objectivo é integrar os 15 mil viticultores e quase 600 operadores económicos da Região. "Será desenhado de modo a que todos se sentiam envolvidos", assegura o vogal da Comissão Executiva, Rui Pinto


A ideia já vinha germinando há algum tempo, dando mesmo origem a iniciativas várias de formação na Academia do Vinho Verde, mas 2021 marca o arranque oficial da Estratégia de Sustentabilidade para a Região dos Vinhos Verdes. Incluído no Plano de Actividades e Orçamento da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), este será "um dos pilares" da estratégia da Região para os próximos anos.

"Apesar da grande área de vinha envolvida - perto de 15 mil hectares - e da heterogeneidade dos objectivos, dinâmicas operacionais e infra-estruturas de cada um dos 15 mil viticultores e quase 600 operadores económicos da Região, temos a certeza que este é um projecto que é para todos e será desenhado de modo a que todos se sintam envolvidos", garante o vogal da Comissão Executiva da CVRVV, Rui Pinto.

Ambiente, Sociedade e Economia são os três pilares estratégicos em que assentará a estratégia, contratado à AgroGes, consultora especializada no apoio ao desenvolvimento rural e aos sectores agro-florestal e alimentar. Sendo certo que muitos dos processos e referenciais de boas práticas agrícolas, designadamente ao nível da agricultura biológica, da produção integrada, da agricultura biodinâmica ou da economia circular, vêm já sendo aplicados por muitos dos agentes da Região.

E o primeiro passo para a criação desta Estratégia de Sustentabilidade é, precisamente, uma fase de diagnóstico, destinada a identificar o contexto em que o projecto será desenvolvido e as necessidades e expectativas dos vários agentes da Região, e que inclui uma avaliação preliminar do nível de desempenho ambiental e social actual.

Segue-se a definição das áreas prioritárias de intervenção, bem como das medidas-tipo a implementar para melhorar o desempenho dos agentes nas mesmas, promovendo o alinhamento com referenciais de certificação ambiental e social aplicáveis ao sector. Por fim, a implementação, que inclui, na sua primeira fase, um conjunto de sessões temáticas com os agentes, focadas na melhoria do desempenho em cada uma das áreas prioritárias identificadas. Tudo sem esquecer a estratégia de promoção, com acções de sensibilização e formação pela Região.

Todos serão desafiados a aderir. "Pretendemos abranger todos os agentes da Região, desde a produção da uva até à expedição do vinho, sob as suas mais diversas formas. Todos os intervenientes que acrescentem valor à uva e ao vinho vão ser chamados a integrar este projecto", frisa Rui Pinto. Este responsável tem consciência que nem todos os agentes desenvolverão esta estratégia ao mesmo ritmo, sobretudo atendendo à crise pandémica. "Temos noção que a época que atravessamos poderá criar alguma resistência face à incerteza do que nos espera num futuro próximo, em que as necessidades sejam outras", sustenta.

No entanto, a CVRVV acredita que todos os intervenientes poderão obter ganhos e vantagens competitivas da adesão à Estratégia de Sustentabilidade da Região. Desde logo, a implementação de medidas de eficiência energética e de bom uso dos recursos hídricos trarão eficiência produtiva e diminuição de custos. E todos sabemos que, hoje em dia, "a redução de custos operacionais é estratégica em qualquer actividade", lembra Rui Pinto. Que dá outros exemplos, ao nível da boa gestão das matérias-primas, que evitem desperdícios, mas, também, da escolha de bons materiais e de fornecedores de proximidade, de modo a reduzir toda a circulação de veículos, promovendo o desenvolvimento da economia local.

Por outro lado, também a montante há grandes preocupações com a redução de custos, uma vez que o preço da uva se tem mantido estável nos últimos anos. Uma redução passa, por exemplo, por uma boa calibração dos pulverizadores, diminuindo as caldas utilizadas e pela implementação de práticas preventivas de tratamentos. Fundamental é, também, aproveitar todas as ferramentas existentes em termos de previsão climática. Sem esquecer, claro, uma boa utilização do solo, aproveitando todas as suas potencialidades, mas praticando uma mobilização mínima e adequada do mesmo. "Podemos aqui utilizar uma expressão que diz muito -  O DIREITO DO SOLO", sublinha este responsável.

Muito importante é, ainda, a defesa da biodiversidade que existe em cada sub-região, de modo a assegurar a manutenção do equilíbrio ambiental, acrescenta, sem esquecer o papel que a investigação e desenvolvimento pode aportar a este plano, com a ajuda das Universidades e Institutos, bem como todos os privados que se queiram envolver.

"Enfim, há uma série de boas práticas que podem diminuir os custos de produção aos viticultores, indo de encontro a esta Estratégia de Sustentabilidade Ambiental", defende Rui Pinto. E sendo óbvio que todos os intervenientes da fileira do vinho ganham com esta intervenção, a CVRVV quer, também, "desmistificar a crença generalizada de que o sector primário é o principal responsável pelo desequilíbrio a que temos assistido, globalmente, no nosso ecossistema".  Para Rui Pinto, além das vantagens ambientais e económicas que advêm da adopção de boas práticas, há ainda dividendos a retirar do ponto de vista social, com a sociedade a poder observar, in loco, nas vinhas e nas adegas, "tudo o que de bom se faz em toda a fileira. E, por isso, acredita, também o Enoturismo irá "beneficiar fortemente" da implementação deste Plano de Sustentabilidade.

Já a directora-geral da AGRO.GES, salienta que o objectivo último do projecto agora proposto é aumentar o desempenho da sustentabilidade da Região e capitalizar esse atributo na diferenciação dos Vinhos Verdes em segmentos de maior valor acrescentado e em mercados em que a demonstração de elevados padrões de sustentabilidade é já um requisito de entrada ou permanência". Manuela Nina Jorge defende mesmo que os agentes económicos que venham a ser certificados "poderão esperar entrar em novos mercados, onde este reconhecimento é fundamental, e, consequentemente, poderão ter um aumento da procura e, muito provavelmente, um prémio de valorização".

A CVRVV concorda lembrando que este é um projecto encarado numa perspectiva de melhoria contínua. Ou seja, cada interveniente vai sendo agrupado em determinado escalão de cumprimento da Estratégia, mas a intenção é que vá progredindo. Com acções de formação contínua, reuniões e seminários, bem como visitas a outras regiões, onde programas similares estão a ser implementados, cada viticultor e agente económico será apoiado nas suas necessidades para atingir novas e desafiantes metas.

Até ao final do ano, a Estratégia de Sustentabilidade para a Região dos Vinhos Verdes estará pronto e o objectivo é que, em 2022, a sua metodologia esteja já implementada. "Esperamos cobrir a maior área de vinha possível, bem como a maior parte das adegas", sustenta Rui Pinto.

Por Ilídia Pinto

(Artigo Publicado na edição nº 14 do Boas Vinhas, fevereiro 2021)

 

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