Oportunidades de Economia Circular nas Grainhas de Uva

9 março 2021

É inquestionável a importância do sector vitivinícola para a economia nacional. Nos últimos anos, as empresas fizeram importantes investimentos que se traduziram no desenvolvimento de novos produtos e na consolidação das suas marcas em mercados nacionais e internacionais. Para além dos desafios diários colocados pela economia global e outros inerentes ao carácter sazonal da sua actividade, a indústria do vinho depara-se ainda com o desafio da transição para uma economia circular, esperando encontrar, neste novo modelo económico, um conjunto de novas oportunidades de negócio.

Para responder a este desafio, as empresas do sector vitivinícola têm vindo a fazer um esforço crescente na reconversão dos seus processos produtivos, integrando métodos de reutilização, reciclagem e valorização de subprodutos e águas residuais, com o objectivo de aumentar a sua ecoeficiência e minimizar os impactos ambientais que possam resultar da sua actividade.

 As instituições de ensino superior têm desempenhado um papel importante para o alcance deste desígnio, promovendo projetos de Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico em parceria com as empresas. É verdade que as operações de vinificação geram volumes elevados de resíduos, como engaços, películas e grainha, que devido à sua composição e cargas orgânicas associadas, ainda representam um encargo socio-ambiental e um desperdício de recursos na fileira agroalimentar, não apenas em Portugal, mas, também, em muitos outros países produtores de vinho.

A adopção de estratégias de valorização destes resíduos, assentes num efectiva segregação e transformação em produtos de valor acrescentado, promovendo a circularidade e sustentabilidade do sector, tem vindo a assumir um interesse crescente. O projecto WAW ? Waste Around the Wine contribuiu para a introdução do conceito de economia circular em 12 empresas do sector vitivinícola, incentivando a utilização de resíduos como recurso através da reciclagem e valorização em novos processos produtivos.

Os estudos de caracterização de sementes de uvas de diferentes castas confirmaram o seu potencial para obtenção de produtos de valor acrescentado. O óleo de grainha de uva, pelo seu conteúdo em ácidos gordos essenciais e muitos outros compostos bioativos, torna-se bastante atrativo para a indústria alimentar, cosmética e farmacêutica.

Como óleo vegetal alimentar, chega a atingir no mercado o valor de 18 euros por litro, se for extraído mecanicamente por prensagem a frio, a partir de uvas produzidas em modo biológico.

Os mesmos estudos revelaram ainda que sementes de uvas de castas da Região dos Vinhos Verdes podem ser uma matéria-prima promissora para o desenvolvimento de outros produtos com valor nutricional e ricos em compostos fenólicos, reconhecidos pelas suas propriedades antioxidantes, como farinha de grainha. Importa agora definir modelos de simbiose industrial e criar economias de escala que viabilizem a implementação destes processos de valorização de subprodutos, como forma de alcançar o tão desejável crescimento económico, sustentável e inteligente.

 

Ana Cristina Rodrigues

proMetheus e Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

(Artigo Publicado na edição nº 5 do Bons Vinhos, fevereiro 2021)

 

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