Há tintos para lá do Vinhão nos Vinhos Verdes?

15 março 2021

Brancelho, Touriga Nacional ou Tinta Roriz são algumas das castas mais utilizadas


Numa Região maioritariamente de vinhos brancos, podem os tintos aspirar a um lugar especial na escolha dos consumidores Sobretudo quando se sabe que o Vinhão, a principal casta tinta nos Vinhos Verdes, é tão pouco consensual? Anselmo Mendes, Fernando Moura e Rui Cardoso são alguns dos enólogos que acreditam que sim e que estão a fazer por isso. Sendo certo que, em 15.500 hectares de vinha plantados na Região dos Vinhos Verdes, 70% são de castas brancas.

Fernando Moura trabalha com a Adega Molares há 12 anos e, quando chegou, já a empresa trabalhava com castas de fora da Região. Começaram com quatro hectares, hoje são 50, dos quais 2,5 hectares de castas tintas. A política da empresa, de Celorico de Basto, é que o tinto só é engarrafado quando atinge os 14 graus, o que só aconteceu em 2010, em 2013 e em 2017. Os vinhos são sujeitos a dois anos de envelhecimento em barrica e, por isso, o de 2017 só recentemente foi engarrafado. A Touriga Nacional e a Aragonês, numa proporção de 60/40, dão origem ao Adega Molares, enquanto o Obra Completa é um lote das castas Merlot e Syrah. Vinhos que são vendidos como Regional Minho, o que não preocupa o empresário.

Fernando Moura dá, ainda, consultoria em enologia a outros produtores na Região. Faz, anualmente, 1,6 milhões de garrafas de tinto, que correspondem a cerca de 10% da produção total na Região. Em Monção faz Vinhão, Brancelho e Pedral; em Ponte de Lima, Vinhão, Borraçal e Espadeiro; em Amarante e Basto faz 100% Vinhão, além do projecto com as castas de fora da Região da Adega Molares. Para este enólogo a explicação no sucesso do Vinhão nos Verdes está na cor que a casta imprime aos vinhos. "O consumidor gosta de vinhos carregados e o produtor acomodou-se, porque se dá bem com o encepamento do Vinhão e as uvas são mais bem pagas", argumenta.

Mas o tinto de eleição de Fernando Moura é o resultado do "casamento perfeito" entre o Vinhão e a Touriga Nacional, com a Touriga a 2dar-lhe suavidade, estrutura e longevidade". Para este enólogo, "há ainda muito trabalho a fazer", quer a nível promocional quer a nível vitícola, para afirmar os tintos interna e externamente. "Na década de 60, os tintos representavam 85% das vendas de Vinho Verde. Hoje estão nos 15%. Porque é mais fácil cultivar uvas brancas e porque os consumidores preferem os vinhos brancos. O que faz com que estas uvas sejam mais valorizadas", refere.

Para se apostar nos tintos, Fernando Moura acredita que é preciso escolher os melhores terrenos, com a melhor exposição, mas, também, os encepamentos e as castas que melhor funcionam em cada sub-região. "A aposta nos tintos é válida, mas, apenas, se se fizerem vinhos diferenciadores. Mais encorpados e graduados. Nunca com menos de 12,5 graus", defende.

O Alvarelhão, mais conhecido por Brancelho, tem sido a grande aposta de Anselmo Mendes nos tintos. "Se não é a mais antiga casta tinta portuguesa, é seguramente uma das mais antigas e esteve na base das exportações dos vinhos de Monção, a partir do século XV, para Inglaterra", diz. Há 20 anos que Anselmo trabalha a casta, que considera ser a "pinot noir" portuguesa. "Não me parece que haja outra casta capaz de chegar a este vinho", argumenta.

"No Minho, com a epidemia do Vinhão, porque tudo queria cor [nos vinhos], todas as castas mais antigas, como o Alvarelhão, o Verdelho, o Pedral ou o Caínho, ficaram para trás. Mas os vinhos do século XV eram assim, tinham pouca cor e, por isso, se chamavam Pardusco", explica. Em homenagem a isso, registou a marca. O Pardusco Private é um vinho 100% Alvarelhão e que sai da adega a 12,5 euros, com destino a mercados como a Coreia do Sul, o Canadá ou o Brasil. Já o Pardusco, um lote com 50% de Alvarelhão, 25% de Pedral e 25% de Caínho, sai da adega a 13,5 euros e é muito apreciado no Canadá, Alemanha e países do Báltico.

Apesar de o consumo de tintos ser hoje residual na Região, muito por força do Vinhão, que considera um vinho "muito áspero e nada fácil de entender", Anselmo acredita que têm enormes potencialidades. "O Alvarelhão é o oposto do Vinhão. É menos rústico, mas tem uma boa estrutura, uma boa acidez, é muito elegante e envelhece bem. Tudo o que caracteriza um grande tinto e que, por isso, auguram um bom futuro para a casta", defende o enólogo. Que decidiu só plantar castas tintas tradicionais na sua mais recente propriedade, uma quinta de cinco hectares, próxima da Brejoeira. "É uma aposta arrojada, mas eu acredito no potencial destes vinhos. A verdade é que falta muito conhecimento, mas também falta muito arrojo em Portugal", considera.

Também a Quinta da Massôrra, em Resende, faz uma aposta forte nos tintos, que asseguram metade da sua produção, mas numa vertente de Vinho Regional Minho, já que usa as castas típicas do Douro. A proximidade da propriedade à Região Demarcada do Douro, a uns escassos 10 quilómetros, ditou a opção, atendendo às "condições edafo-climáticas das vinhas".

Rui Cardoso, enólogo da quinta, reconhece que foi um "risco assumido", mas que trouxe "imensa dificuldade na perspetiva comercial". "Quando batíamos à porta de um restaurante com os nossos tintos, a primeira questão era " Mesmo que o vinho seja bom, onde é que o vamos colocar na carta de vinhos?" Tem-nos dado imenso trabalho conseguir dar a provar os nossos tintos aos profissionais da restauração», admite.

Touriga Nacional e Tinta Roriz são as castas mais usadas. Sousão, muito pouco. "São castas bem adaptadas às nossas condições, com boas maturações fenólicas e alcoólicas. Conseguimos produzir vinhos macios, encorpados, frescos e com um enorme potencial de envelhecimento", diz o enólogo. Para ajudar a comunicar um "Verde diferente", a Quinta da Massôrra associou-se à Quinta da Covela, à 1000 Curvas, ao Paço do Teixeirô e à Quinta do Ferro para constituírem os Douro Verde Vintners.

 Por Ilídia Pinto

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